Luís Vaz de
Camões, poeta português do século XVI, nasceu, provavelmente, em Lisboa, em
1524 ou 1525. Embora seus dados biográficos e bibliográficos sejam incertos,
sabe-se que pertencia a uma família de pequena nobreza e que fez o curso de
artes em Coimbra. Em 1550, alistou-se como soldado para a Índia, sendo que só
embarcou em 1553 após ter passado alguns meses na cadeia, isto é, como castigo.
Depois de tantos anos no Oriente, regressa à Lisboa, vindo de Moçambique, em
1567, e consigo traz o seu famoso poema épico, Os Lusíadas. Viveu os seus últimos anos na miséria, sendo a data da
sua morte, também incerta, entre 1579 e 1580. Enquanto vivo, Camões publicou Os Lusíadas (1572) e apenas três dos
seus poemas líricos, concretamente, uma ode, um soneto e uma elegia.
A lírica camoniana
encontra-se dividida em duas vertentes, a tradicional ou medida velha e a clássica ou medida
nova. A lírica tradicional é composta em redondilhas maior (sete sílabas
métricas) e menor (cinco sílabas métricas), estruturas utilizadas na poesia
palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia Resende, fazendo parte desta vertente,
os motes glosados, cantigas, endechas, vilancetes, esparsas e trovas, géneros
característicos da poesia peninsular do século XV e início do século XVI. A
lírica clássica, por sua vez, é composta em decassílabos (dez sílabas métricas),
em contraste com as redondilhas tradicionais, sendo as suas formas fixas de
influência italiana, introduzidas em Portugal por Sá de Miranda (1481-1558):
sonetos, éclogas, odes, sextinas, oitavas, elegias e canções. Camões escreveu,
também, peças de teatro, entre elas Anfitriões,
comédia de inspiração clássica, El-Rei
Seleuco, comédia em um ato, e, por fim, Filodemo,
comédia novelesca.
Os sonetos de
Camões são a parte mais conhecida da sua lírica. Sendo uma das formas fixas de
poesia inspiradas nos modelos italianos, o soneto é composto por catorze versos
decassilábicos, distribuídos em quatro estâncias, sendo duas quadras e dois
tercetos, apresentando, ainda, o esquema rimático ABBA / ABBA / CDC / DCD ou ABBA
/ ABBA / CDE / CDE. Esta estrutura externa permite que se organize o soneto
num discurso em tese, normalmente nas duas primeiras quadras em que o tema é
apresentado e definido, antítese, no primeiro terceto em que se encontra a
contradição da tese, e síntese, na chave-de-ouro onde, resumidamente, se
apresentam os resultados da contradição entre a tese e a antítese (lógica
Aristotélica).
Os temas centrais
dos sonetos encontram-se baseados no Amor e as suas contradições, na conceção
feminina (da mulher amada), o desconcerto do mundo e na mudança Primeiramente,
a temática do Amor, que tem como
influências: as cantigas de amigo,
na descrição de amores espontâneos e sentimentos como a esperança, a saudade e
a ansiedade, protagonizados por uma jovem donzela num ambiente bucólico (“Na
fonte está Lianor / Lavando a talha e chorando, / Às amigas perguntando: / -
Vistes lá o meu amor?”); as cantigas de
amor, descrevendo um amor não correspondido por uma senhora de nível
superior, a quem presta vassalagem amorosa (“Perdigão que o pensamento / Subiu
a um alto lugar, / Perde a pena do voar, / Ganha a pena do tormento”); e a estética renascentista, com base no neoplatonismo e petrarquismo, em que se
descreve um amor puro e ideal por uma mulher angelical, que, amada à distância,
sublima a alma do amador (“Tornai à bela Vénus a beleza; / a Minerva o saber, o
engenho e a arte; / e a pureza à castíssima Diana.”). De facto, a contradição
entre o amor carnal e o amor espiritual, ou mesmo o próprio amor, originam
sentimentos e estados contraditórios (“Tanto de meu estado me acho incerto, /
Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio; / Sem causa, juntamente choro e
rio,”), sendo a inatingibilidade, infelicidade e a ausência de correspondência,
a regra geral do Amor na lírica camoniana. Além disso, a Natureza, inspirada
também no petrarquismo, surge como espelho dos sentimentos do sujeito poético
(“Aquela triste e leda madrugada, / Cheia toda de mágoa e piedade”). Assim, o
sofrimento amoroso é comparado aos tormentos do inferno, inspirado em Dante
(“Ela viu as palavras magoadas / Que puderam tornar o fogo frio, / E dar
descanso às almas condenadas”). Em segundo lugar, a conceção da mulher amada que, fisicamente, é à moda petrarquista
(Laura), dotada de uma beleza idealizada: é formosa, com pele alva como a neve,
olhos azuis ou verdes e cabelos loiros. Psicologicamente, o retrato feminino
também sofre influências petrarquistas, sendo a mulher, dotada de grandes
qualidades espirituais, pura e intocável, com um olhar sereno, uma postura
discreta e um riso controlado (“(…) um riso brando e honesto, / (…) um doce e
humilde gesto”). Contudo, Camões foge aos padrões de beleza convencional, como
se ver em “Endechas à Bárbara Escrava”, em que a mulher amada é negra,
escrava e tem cabelo e olhos pretos, mesmo assim, psicologicamente, ela
continua a ser caracterizada por grande beleza interior, calma e serenidade (“Pretidão
do Amor / Tão doce a figura (…) Presença serena / Que a tormenta amansa”). Em
seguida, temos o desconcerto do mundo
que apresenta traços do Maneirismo, em que o mundo é caracterizado pela
confusão e irracionalidade. Neste consistem um desajuste entre as necessidades
e anseios do sujeito poético e a realidade da sua vida íntima, social e
material (“Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos (…) / Os maus
vi sempre nadar / Em mar de contentamentos.”); referências aos erros do passado
e a um destino desfavorável; a condenação do sujeito à infelicidade (“Que as
magoadas iras me ensinaram / A não querer já nunca ser contente.”); e a
constante renovação das esperanças e consequentes enganos, o que determina a
consciência de que nunca será feliz (“Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
/ (…) qualquer grande esperança é grande engano”). Quanto à mudança, esta
aparece que forma a sustentar o desconcerto do mundo, pois reflete-se que tudo
no Mundo está sujeito a constantes mudanças, no entanto, tudo muda para pior
(“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (…) / E em mim converte em choro o
doce canto”).
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