Considera que existem personagens em Crónica
de uma morte anunciada que se relacionam com os aspetos culturais?
O
tema nuclear da obra, entre outros temas, é a virgindade, uma vez que é em
volta deste que a ação se desencadeia. Alvo de distintas opiniões, tabus e
numerosos debates, este tópico aparece, primeiramente, como meio caracterizador
de uma época em que a virgindade feminina era vista como elemento-chave para um
casamento. Entretanto, nesta narrativa, depara-se com um homem, Rámon, que ao
de descobrir que a mulher com quem acaba de se casar não possui tal elemento,
isto é, já não era virgem, a devolve para sua família; uma mãe furiosa pelo
facto de ela não ter sabido disfarçar a ausência da sua virgindade; dois irmãos
dispostos a cometer um homicídio para salvar a honra da irmã e, por fim, a
resultante morte do “violador” apontado pela própria Ângela, Santiago Nasar.
Numa altura de grande influência da Igreja Católica na sociedade, a virgindade
da mulher era vista como símbolo de pureza e preservação, o sexo antes de do
casamento era visto como pecado carnal, portanto, raramente se falava sobre
sexo. Ao “atrever-se” a casar, inicialmente por obrigação, de branco, símbolo
de pureza, mesmo já não sendo virgem, Ângela põe em causa não só a honra da
família, como a própria honra do seu ex-futuro marido. De acordo com Freud, a
virgindade feminina é a “continuação lógica do direito à posse da mulher, que
constitui a essência da monogamia”, isto é, contrariamente à virgindade
masculina, a que se é dada a mínima importância, a virgindade feminina é vista
como um símbolo de que a mulher com quem se casa é somente sua, jamais terá
sido tocada por outro homem. Por outro lado, atualmente, embora este tema ainda
seja motivo de diversos debates, dá-se cada vez menos importância à perda da
virgindade antes do casamento.
Finalmente,
retomando à pergunta inicial, desde Ângela, Puríssima, Pedro e Pablo, Victoria
Guzmán até todos as personagens figurantes que sabem o que acontecerá a
Santiago, se relacionam com aspetos culturais, neste contexto, com a
virgindade. Em primeiro lugar estão Ângela, Puríssima e os irmãos Pedro e Pablo
Vicário. Puríssima Vicário representa a mãe rigorosa e ditadora (PasseiWeb,
s.d.)
dos anos 70-80, pois ela cria os seus filhos, Pedro e Pablo para serem grandes
homens, e as suas filhas para serem submissas aos seus maridos, pois como a
mesma afirma “Qualquer homem será feliz com elas (suas filhas), porque foram
criadas para sofrer.”[1] (Márquez, 1981) .
Ao saber que a sua filha já não é virgem, isto antes do casamento, ela obriga-a
a fingir que a sua virgindade e se enfurece quando a mesma é repudiada na noite
de núpcias. Ademais, ela ainda obriga Ângela a vestir vermelho para que não
pensassem que estivesse de luto por Santiago. Puríssima relaciona-se, assim,
com o tabu da virgindade e com o próprio machismo face à submissão que ela
incentiva que as filhas tenham perante seus maridos. Ângela, por sua vez, é a mais
nova das quatro irmãs e, também a responsável pela morte de Santiago, na
tentativa de tentar proteger o rapaz com quem perdeu a sua virgindade. Ela
representa as moças da época que se apaixonaram e possivelmente perderam a sua
virgindade antes do casamento, normalmente arranjado pelos pais, e tentam
proteger o amado. Porém, esta descobre que ama incondicionalmente o seu marido,
Rámon e sofre pelo seu desprezo. Já Pedro e Pablo, apesar do bom carácter,
associam-se aos filhos/irmãos que faziam de tudo para manter a honra da
família, daí o desejo de acabar com a vida com o indivíduo que supostamente
desonrou a sua irmã, com alguma hesitação de cumprir tal tarefa. Em seguida,
vêm Victoria Guzmán, a cozinheira da casa de Nasar, e a sua filha, Divina Flor.
Santiago já havia despertado o seu interesse em Divina Flor e, se não fosse a
sua morte, esta iria acabar por servi-lo. Contudo, Victoria representa a mãe
protetora e que, apesar de saber que Santiago seria morto, não o alertou
porque, na verdade, queria que o matassem. Dessa forma, a sua filha não seria
uma das suas vítimas e gozaria de um bom casamento, pois continuaria virgem.
Por fim, os órgãos responsáveis pela regulamentação, nomeadamente, o Prefeito,
o Padre e o Chefe, representam a lei. Ainda assim, estes não fazem nada para
impedir os irmãos Vicário de cometer o homicídio, mesmo sem provas concretas,
ou seja, o costume foi escolhido em detrimento da lei.
Em
síntese, toda a cidade tomou conhecimento do que se iria suceder posteriormente
no entanto, ninguém foi capaz de fazer alguma coisa para impedir que Santiago
fosse morto. Esta atitude por parte da sociedade, em si, pode ser vista por
duas vertentes, por um lado a subestimação das pessoas quanto à coragem de
Pedro e Pablo em matá-lo com a exceção de Clotilde Armenta, que tenta avisar
Victoria. Para além disso, está o facto de os irmãos estarem constantemente a
informar sobre o que iriam fazer para que Santiago tivesse tempo de fugir, ou
que, pelo menos, os tentassem impedir. Por outro lado, a questão, novamente, da
honra manchada a ser salva, numa cidade em que, segundo os costumes, a honra se
paga com a morte. Por fim, é com base em tais personagens que se pode verificar
a influência dos aspetos culturais sob as personagens, numa época em que mesmo que
fosse necessário matar para ter a honra de volta, ainda havia quem hesitasse
porque acreditava que, talvez, não seria necessário tomar uma atitude tão
extrema (ex.: Pedro e Pablo); em que o casamento “arranjado” pelos pais nem
sempre acabaria em amor verdadeiro, mas Ângela acaba por se apaixonar pelo
marido que a repudiou; enfim, uma época em que a lei vem depois do costume e a
virgindade é fundamental na vida de uma mulher. Por essa razão, Crónica de uma morte anunciada critica a
mentalidade de uma sociedade que pune o envolvimento sexual, considerado
precoce naquela época, antes do casamento e, consequentemente, permite que o
costume faça com que um assassinato se torne uma coisa mínima e sem importância
alguma, pois foi executado por uma boa causa.
Bibliografia
Ceia, C., s.f. E-Dicionário de
Termos Literários. [En línea]
Available at: http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&link_id=336:romance-policial&task=viewlink
[Último acesso: 26 Setembro 2014].
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[Último acesso: 26 Setembro 2014].
Márquez,
G. G., 1981. Crônica de uma morte anunciada. 9ª Edição ed. Rio de
Janeiro: Record.
PasseiWeb,
s.f. Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez. [En
línea]
Available at: http://www.passeiweb.com/estudos/livros/cronica_de_uma_morte_anunciada
[Último acesso: 27 Setembro 2014].
Available at: http://www.passeiweb.com/estudos/livros/cronica_de_uma_morte_anunciada
[Último acesso: 27 Setembro 2014].
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