sábado, 25 de outubro de 2014

Camões e a Lírica Camoniana

Luís Vaz de Camões, poeta português do século XVI, nasceu, provavelmente, em Lisboa, em 1524 ou 1525. Embora seus dados biográficos e bibliográficos sejam incertos, sabe-se que pertencia a uma família de pequena nobreza e que fez o curso de artes em Coimbra. Em 1550, alistou-se como soldado para a Índia, sendo que só embarcou em 1553 após ter passado alguns meses na cadeia, isto é, como castigo. Depois de tantos anos no Oriente, regressa à Lisboa, vindo de Moçambique, em 1567, e consigo traz o seu famoso poema épico, Os Lusíadas. Viveu os seus últimos anos na miséria, sendo a data da sua morte, também incerta, entre 1579 e 1580. Enquanto vivo, Camões publicou Os Lusíadas (1572) e apenas três dos seus poemas líricos, concretamente, uma ode, um soneto e uma elegia.
A lírica camoniana encontra-se dividida em duas vertentes, a tradicional ou medida velha e a clássica ou medida nova. A lírica tradicional é composta em redondilhas maior (sete sílabas métricas) e menor (cinco sílabas métricas), estruturas utilizadas na poesia palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia Resende, fazendo parte desta vertente, os motes glosados, cantigas, endechas, vilancetes, esparsas e trovas, géneros característicos da poesia peninsular do século XV e início do século XVI. A lírica clássica, por sua vez, é composta em decassílabos (dez sílabas métricas), em contraste com as redondilhas tradicionais, sendo as suas formas fixas de influência italiana, introduzidas em Portugal por Sá de Miranda (1481-1558): sonetos, éclogas, odes, sextinas, oitavas, elegias e canções. Camões escreveu, também, peças de teatro, entre elas Anfitriões, comédia de inspiração clássica, El-Rei Seleuco, comédia em um ato, e, por fim, Filodemo, comédia novelesca.
Os sonetos de Camões são a parte mais conhecida da sua lírica. Sendo uma das formas fixas de poesia inspiradas nos modelos italianos, o soneto é composto por catorze versos decassilábicos, distribuídos em quatro estâncias, sendo duas quadras e dois tercetos, apresentando, ainda, o esquema rimático ABBA / ABBA / CDC / DCD ou ABBA / ABBA / CDE / CDE. Esta estrutura externa permite que se organize o soneto num discurso em tese, normalmente nas duas primeiras quadras em que o tema é apresentado e definido, antítese, no primeiro terceto em que se encontra a contradição da tese, e síntese, na chave-de-ouro onde, resumidamente, se apresentam os resultados da contradição entre a tese e a antítese (lógica Aristotélica).

Os temas centrais dos sonetos encontram-se baseados no Amor e as suas contradições, na conceção feminina (da mulher amada), o desconcerto do mundo e na mudança Primeiramente, a temática do Amor, que tem como influências: as cantigas de amigo, na descrição de amores espontâneos e sentimentos como a esperança, a saudade e a ansiedade, protagonizados por uma jovem donzela num ambiente bucólico (“Na fonte está Lianor / Lavando a talha e chorando, / Às amigas perguntando: / - Vistes lá o meu amor?”); as cantigas de amor, descrevendo um amor não correspondido por uma senhora de nível superior, a quem presta vassalagem amorosa (“Perdigão que o pensamento / Subiu a um alto lugar, / Perde a pena do voar, / Ganha a pena do tormento”); e a estética renascentista, com base no neoplatonismo e petrarquismo, em que se descreve um amor puro e ideal por uma mulher angelical, que, amada à distância, sublima a alma do amador (“Tornai à bela Vénus a beleza; / a Minerva o saber, o engenho e a arte; / e a pureza à castíssima Diana.”). De facto, a contradição entre o amor carnal e o amor espiritual, ou mesmo o próprio amor, originam sentimentos e estados contraditórios (“Tanto de meu estado me acho incerto, / Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio; / Sem causa, juntamente choro e rio,”), sendo a inatingibilidade, infelicidade e a ausência de correspondência, a regra geral do Amor na lírica camoniana. Além disso, a Natureza, inspirada também no petrarquismo, surge como espelho dos sentimentos do sujeito poético (“Aquela triste e leda madrugada, / Cheia toda de mágoa e piedade”). Assim, o sofrimento amoroso é comparado aos tormentos do inferno, inspirado em Dante (“Ela viu as palavras magoadas / Que puderam tornar o fogo frio, / E dar descanso às almas condenadas”). Em segundo lugar, a conceção da mulher amada que, fisicamente, é à moda petrarquista (Laura), dotada de uma beleza idealizada: é formosa, com pele alva como a neve, olhos azuis ou verdes e cabelos loiros. Psicologicamente, o retrato feminino também sofre influências petrarquistas, sendo a mulher, dotada de grandes qualidades espirituais, pura e intocável, com um olhar sereno, uma postura discreta e um riso controlado (“(…) um riso brando e honesto, / (…) um doce e humilde gesto”). Contudo, Camões foge aos padrões de beleza convencional, como se ver em “Endechas à Bárbara Escrava”, em que a mulher amada é negra, escrava e tem cabelo e olhos pretos, mesmo assim, psicologicamente, ela continua a ser caracterizada por grande beleza interior, calma e serenidade (“Pretidão do Amor / Tão doce a figura (…) Presença serena / Que a tormenta amansa”). Em seguida, temos o desconcerto do mundo que apresenta traços do Maneirismo, em que o mundo é caracterizado pela confusão e irracionalidade. Neste consistem um desajuste entre as necessidades e anseios do sujeito poético e a realidade da sua vida íntima, social e material (“Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos (…) / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos.”); referências aos erros do passado e a um destino desfavorável; a condenação do sujeito à infelicidade (“Que as magoadas iras me ensinaram / A não querer já nunca ser contente.”); e a constante renovação das esperanças e consequentes enganos, o que determina a consciência de que nunca será feliz (“Vai-se gastando a idade e cresce o dano; / (…) qualquer grande esperança é grande engano”). Quanto à mudança, esta aparece que forma a sustentar o desconcerto do mundo, pois reflete-se que tudo no Mundo está sujeito a constantes mudanças, no entanto, tudo muda para pior (“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (…) / E em mim converte em choro o doce canto”).  

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